quarta-feira, 30 de julho de 2008

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mario Quintana

POEMINHA SENTIMENTAL

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana - Preparativos de Viagem

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Clareana

por: Joyce

Um coração
de mel de melão
de sim e de não
Parece um bichinho
no sol de manhã
novelo de lã
No ventre da mãe
bate um coração
De Clara, Ana
e quem mais chegar
Água, terra, fogo e ar

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

DIA BRANCO (Geraldo Azevedo/RenatoRocha )

Se você vier
Pro que der e vier comigo
Eu te prometo o sol
Se hoje o sol sair
E a chuva
Se a chuva cair
Se você vier até onde a gente chegar
Numa praça na beira do mar
Pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier comigo
Esse tanto
Esse tonto
Esse tão grande amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Pro que der e vier comigo

domingo, 4 de novembro de 2007

Caiu o verbo
Arranhou o queixo
O dedo na boca para dormir
Um choramingo
E o lençol manchado de mercúrio cromo.

Cor de sangue
Foi só drama

Pela manhã percebeu-se adjetivo
Saiu voando pela janela
Passou por mim,
Sorriu,
Sorri.

Fitou minha asa arranhada
e meus joelhos marcados
Enamorou-se
Pousou aqui.

Se entregou
por amor
ao meu papel.

(04/2003)
A ressaca moral é crônica.
Desfia-se e se entrelaça a outras ressacas já esquecidas.
E o tecido que se desfia – antes tão surrado e esgarçado – é orgânico.
Que dentro em pouco se mostrará cheio de cheiros – de cabelo queimado e urina passada nos muros que construímos – e que já não pulsa – se é que um dia já pulsou – e mostra manchas que não saem ao sol quando quaradas – de excrementos e vômitos de origem desconhecida.
Quando foi que ingeri tal dor?
Como não percebi tal vergonha escondida nas entranhas minhas – que te ofereci assim, sem limpa-las antes.
E você, cru, ansiava por outras....
(19-9-05)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Jura Secreta (Sueli Costa e Abel Silva)

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada que eu quero me suprime
De que por não saber 'Inda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.