Se você vier
Pro que der e vier comigo
Eu te prometo o sol
Se hoje o sol sair
E a chuva
Se a chuva cair
Se você vier até onde a gente chegar
Numa praça na beira do mar
Pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier comigo
Esse tanto
Esse tonto
Esse tão grande amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Pro que der e vier comigo
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
domingo, 4 de novembro de 2007
Caiu o verbo
Arranhou o queixo
O dedo na boca para dormir
Um choramingo
E o lençol manchado de mercúrio cromo.
Cor de sangue
Foi só drama
Pela manhã percebeu-se adjetivo
Saiu voando pela janela
Passou por mim,
Sorriu,
Sorri.
Fitou minha asa arranhada
e meus joelhos marcados
Enamorou-se
Pousou aqui.
Se entregou
por amor
ao meu papel.
(04/2003)
Arranhou o queixo
O dedo na boca para dormir
Um choramingo
E o lençol manchado de mercúrio cromo.
Cor de sangue
Foi só drama
Pela manhã percebeu-se adjetivo
Saiu voando pela janela
Passou por mim,
Sorriu,
Sorri.
Fitou minha asa arranhada
e meus joelhos marcados
Enamorou-se
Pousou aqui.
Se entregou
por amor
ao meu papel.
(04/2003)
A ressaca moral é crônica.
Desfia-se e se entrelaça a outras ressacas já esquecidas.
E o tecido que se desfia – antes tão surrado e esgarçado – é orgânico.
Que dentro em pouco se mostrará cheio de cheiros – de cabelo queimado e urina passada nos muros que construímos – e que já não pulsa – se é que um dia já pulsou – e mostra manchas que não saem ao sol quando quaradas – de excrementos e vômitos de origem desconhecida.
Quando foi que ingeri tal dor?
Como não percebi tal vergonha escondida nas entranhas minhas – que te ofereci assim, sem limpa-las antes.
E você, cru, ansiava por outras....
(19-9-05)
Desfia-se e se entrelaça a outras ressacas já esquecidas.
E o tecido que se desfia – antes tão surrado e esgarçado – é orgânico.
Que dentro em pouco se mostrará cheio de cheiros – de cabelo queimado e urina passada nos muros que construímos – e que já não pulsa – se é que um dia já pulsou – e mostra manchas que não saem ao sol quando quaradas – de excrementos e vômitos de origem desconhecida.
Quando foi que ingeri tal dor?
Como não percebi tal vergonha escondida nas entranhas minhas – que te ofereci assim, sem limpa-las antes.
E você, cru, ansiava por outras....
(19-9-05)
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Jura Secreta (Sueli Costa e Abel Silva)
Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada que eu quero me suprime
De que por não saber 'Inda não quis
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada que eu quero me suprime
De que por não saber 'Inda não quis
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.
Poema em linha reta (Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Este documento - dos mais belos já escritos sobre o uso do solo - vem sendo intensamente divulgado pela Organização das Nações Unidas. É uma carta escrita, em 1854 pelo chefe Seatle ao presidente dos EUA, Franklin Pierce, quando propôs comprar as terras de sua tribo, concedendo-lhe uma outra "reserva"
"Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha.
Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho. Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós.
As florestas perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos estar satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Essa terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar a ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos, e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Se apetite devorará a terra, deixando somente deserto.
Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreenda. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumada pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao meu cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir. Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão do espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.
Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos - e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharam intensamente, iluminados pela força de Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam. Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência".
"Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha.
Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho. Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós.
As florestas perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos estar satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Essa terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar a ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos, e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Se apetite devorará a terra, deixando somente deserto.
Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreenda. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumada pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao meu cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir. Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão do espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.
Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos - e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharam intensamente, iluminados pela força de Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam. Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência".
terça-feira, 23 de outubro de 2007
O Namoro de Inanna e Dumuzi
Eu Tomei banho para o touro selvagem,
Eu tomei banho para o pastor Dumuzi,
Eu perfumei meu corpo com ungüento,
Eu cobri minha boca com o doce cheiro do âmbar,
Eu pintei meus olhos com o kohl.
Ele massageou minhas costas com suas mãos de fada,
O pastor Dumuzi encheu meu colo com nata e leite,
Ele acariciou meus pêlos pubianos,
Ele molhou meu útero.
Ele pôs suas mãos dele em minha vagina santificada,
Ele alisou meu barco preto com nata,
Ele acelerou meu barco estreito com leite,
Ele me acariciou na cama.
Agora eu acariciarei meu alto sacerdote na cama,
Eu acariciarei o pastor crente Dumuzi,
Eu acariciarei suas costas, o pastor da terra,
Eu decretarei um doce destino para ele.
Eu tomei banho para o pastor Dumuzi,
Eu perfumei meu corpo com ungüento,
Eu cobri minha boca com o doce cheiro do âmbar,
Eu pintei meus olhos com o kohl.
Ele massageou minhas costas com suas mãos de fada,
O pastor Dumuzi encheu meu colo com nata e leite,
Ele acariciou meus pêlos pubianos,
Ele molhou meu útero.
Ele pôs suas mãos dele em minha vagina santificada,
Ele alisou meu barco preto com nata,
Ele acelerou meu barco estreito com leite,
Ele me acariciou na cama.
Agora eu acariciarei meu alto sacerdote na cama,
Eu acariciarei o pastor crente Dumuzi,
Eu acariciarei suas costas, o pastor da terra,
Eu decretarei um doce destino para ele.
domingo, 21 de outubro de 2007
Nervos
Bato à sua porta... Que horas são?!A que me importa! A minha existência não está contida entre ponteirosopressores..Venho flertar com as palavras, ainda que sua significância esignificado, eu, os desconheça; Quero-as! Assim, bem estranhas, bemvindas desconhecidas, que sem prévio convite invadem meu quarto.. emsua elegância discreta violam o que até o momento era correto eapropriado;A este instante a temperatura de meu corpo é como a de uma chaleiraque inebria todo o ambiente, e minha presença é percebida através dovapor que exala de meus poros..Ah! Estas letras tão cúmplices entre si, tão leais... Ladras! Furtaramminha consciência. Me fazem ser e sentir o que ainda não sou, ou quetalvez o tenha sido em um tempo e espaço distinto e distante de mim ..Estas frases me assustam, me intrigam e instigam – o que querem de mim?!.. Finalmente – Que delícia! Me devoram.Me viram de ponta-cabeça e todos os segredos me escorregam dos bolsos,contidos e tímidos, viram monstros muito além do que possodimensionar..E quando a tua mão toca aminha.. és o canal, mergulho livremente emtua boca, assim como em um cálice de vinho, onde toda a minha verdadetem a textura e liquidez desta química.. que nos permite toda aperversidade, toda a nudez e nenhuma cautela.Desconfiadamente mansa, sou acolhida em teus braços e desta forma tãobela, zigue-zagueio por teu corpo- entre a estridência e a suavidade,entre a dormência e o acordar..Não quero perder-me em momento algum, esmiúço todas as cores, puras &fortes, por imediato se transformam em matizes esmaecidas, assim quefreneticamente nossos olhares se cruzam..Volto a realidade – rápido- Temos nossas redes de intençõeslogisticamente trabalhadas como teias, armadilhas naturalmentebizarras entre os animais.Me bebe, me cheira e abraça, neste instante já não posso e nem querooferecer resistência..E tu me questionas: Qual a tonalidade da tua paixão?!Que sabor inusitado é este que meu paladar avisa ser perigoso e aindasim insisto em degustar?Resposta – Em meu universo todos sonhamos explosões... todas possuemcores, odores e rítimo e aqui não há ninguém que sonhe em bege.Convida-me a entrar (T.)
Os meus tantos dias
Existem dias em que a dor me queima a carneaté expôr os ossos frágeis.Nesses dias não quero ser poetiza.Não quero deixá-la brotar de mim em suaves sussurros milenares,não quero que outros a leiame com ela se vistam e se sintammais vivos, mais líricos...Existem tantos dias assim...Mais do que a minh'alma quereriasupor.
Nesses dias não quero ser poetiza!Não quero a falsa reflexão, nem o calor dos teus braços,nem a frenética marcha das horas...NÃO QUERO QUE ME DIGAM QUE VAI FICAR TUDO BEM...Quero rasgar-me...Quero arrancar-me...Quero atirar-me de um abismo edeixar a minha carcaça podre enfeitaro vazio.
Nesses dias...não quero ser poetiza.Queria apenas...NADA! (porém tu chegas e abraças o meu corpoque dança em espasmo de intensa dor...)Nunca sentes saudades da morte?
Eu sinto.Saudades da imensidãoque é o não-sentir,a antítese do sofrimento,da queima.
(abraças-me, acalmas-me e eu a chorar e a gritar, a esmurrar-te a face alva,enquanto me torço em dorestão minhas)
Nesses dias... Não quero amor.Não quero doces carícias.Não quero ser poetiza.
E eu tenho tantos dias, tantas noites, horas miseráveis em que me perco dentro de mim...À procura...À procura da criança que não fui,das cicatrizes que me sangram,do colo surdo de mãeque me negase me envenenas o olhar...
Nesses dias.É demasiado duro.É demasiado gritante.NÃO QUERO SER POETIZA.
Só quero ser eu...Apenas eu...E eu...sou miseravelmente pouco.Miseravelmente humana.Inequívocamente não-poetiza.(T.)
Nesses dias não quero ser poetiza!Não quero a falsa reflexão, nem o calor dos teus braços,nem a frenética marcha das horas...NÃO QUERO QUE ME DIGAM QUE VAI FICAR TUDO BEM...Quero rasgar-me...Quero arrancar-me...Quero atirar-me de um abismo edeixar a minha carcaça podre enfeitaro vazio.
Nesses dias...não quero ser poetiza.Queria apenas...NADA! (porém tu chegas e abraças o meu corpoque dança em espasmo de intensa dor...)Nunca sentes saudades da morte?
Eu sinto.Saudades da imensidãoque é o não-sentir,a antítese do sofrimento,da queima.
(abraças-me, acalmas-me e eu a chorar e a gritar, a esmurrar-te a face alva,enquanto me torço em dorestão minhas)
Nesses dias... Não quero amor.Não quero doces carícias.Não quero ser poetiza.
E eu tenho tantos dias, tantas noites, horas miseráveis em que me perco dentro de mim...À procura...À procura da criança que não fui,das cicatrizes que me sangram,do colo surdo de mãeque me negase me envenenas o olhar...
Nesses dias.É demasiado duro.É demasiado gritante.NÃO QUERO SER POETIZA.
Só quero ser eu...Apenas eu...E eu...sou miseravelmente pouco.Miseravelmente humana.Inequívocamente não-poetiza.(T.)
Se sou eu
Estou tão seca de ser eu.Quero arrancar-me pelos olhos e deixar a carcaça a apodrecer no colo da minha mãe. Só ela, que me pariu pode beijar-me a face fria e os lábios retorcidos na palavra puta que não me chega a escapar enquanto morria a olhar para ela e os olhos marejados de lágrimas.Tenho as órbitas comidas pelo ácido das lágrimas, tenho a pele queimada e descarnada a querer separar-se do crânio à força de me arranhar em desespero.Tudo me enoja, tudo me cansa, tudo me rasga os pulmões tão frágeis de engolir este ar, de engolir as palavras, de engolir tudo.Todas as palavras que me cospem morrem-me no estômago onde se misturam com a carne vermelha-sangue e numa mistura quase fatal me roem por dentro. Puxo os que amo para perto de mim mas quebro-os, quebro-os à força de me olharem os olhos comidos pelas lágrimas ácidas, horrorizo-os, pobres deles que estão destinados a escancarar a boca enquanto os faço engolir pedaços de mim que arranco do ventre.Depois mando-os embora, e consumo-me na miséria de estar sozinha, acompanhada tão só de mim e das minhas ironias.Sempre tive os trunfos na manga, sempre fui eu que ditei as regras de todos os jogos e porém queixava-me que eram os outros. E deitei-lhes as culpas em cima de todos os meus erros, de todas as crianças que não acariciei, de todos os amantes que não amei, de todos os livros que não li.Criei uma aura tão merdosamente inocente que só me apetece dançar nua na rua para pararem de dizer que boa menina eu sou. Quero gritar e gritar e gritar até que lhes expludam os tímpanos. Eles são tão surdos que só lhes poupava o trabalho de fingirem que ouvem.E continuo silenciosa. E todos os outros me sorriem tristemente porque se sentem ultrajados com este silêncio que me faz viver num mundo à parte.Mas eu estou aqui... Estou aqui e no entanto não moro em casa nenhuma, não sou de homem nenhum, não me agarro a nenhum sentimento linear e pacífico.Onde é que falhámos - pensam eles. E têm de pensar porque criar uma gaja que resolve a meio da vida que mora num mundo que é podre e é dela e não deixa entrar mais ninguém é algo passível de pena de morte.Porque é que ela não é normal, não come o que os outros comem, não fode como os outros fodem, não se arrasta como os outros se arrastam, não se queixa como os outros queixam, não grita como os outros gritam?Porque é que ela grita quando estamos todos calados, porque é que vomita quando o lençol é mudado, porque é que lê estes livros que ninguém lê, porque é que vê filmes que ninguém vê?ONDE É QUE ERRÁMOS?E eu não digo nada, eu nunca digo nada, eu não me queixo, eu não me valho a mim mesma, eu deixo-me cair para aprender a levantar-me, eu deixo-me cair para aprender a estar caída, eu sou eu, eu sou estupidamente eu, eu quero ser outra e não sou, eu quero ter tudo e não tenho, eu quero ter o nada e não posso, eu quero, eu, eu, eu, eu, eu...Mas será que ninguém lhe ensinou o resto dos pronomes pessoais? rebentam eles e dilaceram-me, é demais, é demais, não há poesia que te valha, pára de ser estúpida, pára de ser egoísta, pára de ser diferente...Estou mesmo seca de ser eu. Adormeci assim que me ensinaram o tu, ou lá o que o valha, e o resto então fez-me rebentar a rir tal é o absurdo do ele, do nós... Nós? Peço desculpa mas preciso rir mais um bocadinho... Vós e coisas assim parecidas.O mundo é um receptáculo de Eus, todos somos eus, tu és um eu, e eu nem sei, eu sei lá o que sou, eu sou uma merda qualquer mas sou.Preciso parar. Preciso parar que hoje ainda rompo as últimas amarras que me agarram ao mundo, à vida, à sanidade.Vou viver mais um dia, vou comer mais um dia, vou trincar mais um dia, vou aguardar mais um dia, vou fingir mais um dia, vou pintar mais um dia, vou escrever mais um dia, reinventar mais um dia, acelerar mais um dia, vomitar mais um dia, deglutir mais um dia, vou rebentar mas não hoje, vou gritar mas não agora, vou triturar mas é só depois, vou chegar mais além num qualquer momento.Por agora fico por aqui... Aqui neste lugar que não conheço, neste corpo que não é meu, estes olhos que são comidos pelas lágrimas, este rosto que arranho todas as manhãs, fico comigo, fico sozinha porque nem comigo consigo estar, mas fico, prometo ficar quieta não vos incomodar a benéfica surdez, não vos incomodar com a minha parca existência, vou fazer tantas coisas, vou elaborar mil planos, vou falhar todos eles, vou chorar a sua morte, vou reerguer-me das suas cinzas, vou tão só seguir a rotina, vou ser boazinha, não me vou despir, não vou dançar, JÁ DISSE QUE NÃO VOU DANÇAR... Guardem os frascos de remédio, peguem nos vossos psicólogos e arrumem-nos nos vossos bolsos, as vossas modernas bíblias que ensinam o bem estar em vinte passos, eu não acredito nisso, eu não acredito em vocês, eu nem acredito na vida, eu quero acreditar apenas no sonho, eu quero apenas trazer palavras, eu nunca mais vou comprar livros, nem ver filmes, nem passear, nem ver a Lua, nem falar.Eu vou parar de falar, eu vou parar de falhar, eu vou até parar de escrever... minto. Não consigo parar de escrever.É compulsivo. É compulsivo, mãe. Não vou ainda atirar-me no teu colo e morrer, ainda te vou enterrar, ainda vou chorar à tua campa sem ter gritado toda a merda que trago cá dentro, e ao outro então não direi nada, quero apagá-lo do meu bi, quero apága-lo do meu adn, quero fingir que o cabrão nem existe, quero rompê-lo, quero acreditar que ele é miserável como eu, quero acreditar que ele tem dor como eu, que acorda cheio de raiva de viver, quero acreditar que vai morrer de overdose ou algo ainda mais doloroso e lento.Não vou ainda dar-vos o direito de pensar que eu morri e já não estou aqui para gritar quando não é o momento de gritar e fazer silêncio quando choram, quando se dilaceram uns aos outros.Eu espero enquanto me ensinam os restantes pronomes pessoais. Será que quando morrer podem escrever na lápide EU e não aqui jaz a não sei das quantas, um nome qualquer e uma data qualquer e umas lamúrias quaisquer de pessoas que nem me conhecem?Ahh... a herege. A quebrada. A insana. A doente. A sem nome. A sem pronome.Eu. (T.)
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