domingo, 21 de outubro de 2007

Se sou eu

Estou tão seca de ser eu.Quero arrancar-me pelos olhos e deixar a carcaça a apodrecer no colo da minha mãe. Só ela, que me pariu pode beijar-me a face fria e os lábios retorcidos na palavra puta que não me chega a escapar enquanto morria a olhar para ela e os olhos marejados de lágrimas.Tenho as órbitas comidas pelo ácido das lágrimas, tenho a pele queimada e descarnada a querer separar-se do crânio à força de me arranhar em desespero.Tudo me enoja, tudo me cansa, tudo me rasga os pulmões tão frágeis de engolir este ar, de engolir as palavras, de engolir tudo.Todas as palavras que me cospem morrem-me no estômago onde se misturam com a carne vermelha-sangue e numa mistura quase fatal me roem por dentro. Puxo os que amo para perto de mim mas quebro-os, quebro-os à força de me olharem os olhos comidos pelas lágrimas ácidas, horrorizo-os, pobres deles que estão destinados a escancarar a boca enquanto os faço engolir pedaços de mim que arranco do ventre.Depois mando-os embora, e consumo-me na miséria de estar sozinha, acompanhada tão só de mim e das minhas ironias.Sempre tive os trunfos na manga, sempre fui eu que ditei as regras de todos os jogos e porém queixava-me que eram os outros. E deitei-lhes as culpas em cima de todos os meus erros, de todas as crianças que não acariciei, de todos os amantes que não amei, de todos os livros que não li.Criei uma aura tão merdosamente inocente que só me apetece dançar nua na rua para pararem de dizer que boa menina eu sou. Quero gritar e gritar e gritar até que lhes expludam os tímpanos. Eles são tão surdos que só lhes poupava o trabalho de fingirem que ouvem.E continuo silenciosa. E todos os outros me sorriem tristemente porque se sentem ultrajados com este silêncio que me faz viver num mundo à parte.Mas eu estou aqui... Estou aqui e no entanto não moro em casa nenhuma, não sou de homem nenhum, não me agarro a nenhum sentimento linear e pacífico.Onde é que falhámos - pensam eles. E têm de pensar porque criar uma gaja que resolve a meio da vida que mora num mundo que é podre e é dela e não deixa entrar mais ninguém é algo passível de pena de morte.Porque é que ela não é normal, não come o que os outros comem, não fode como os outros fodem, não se arrasta como os outros se arrastam, não se queixa como os outros queixam, não grita como os outros gritam?Porque é que ela grita quando estamos todos calados, porque é que vomita quando o lençol é mudado, porque é que lê estes livros que ninguém lê, porque é que vê filmes que ninguém vê?ONDE É QUE ERRÁMOS?E eu não digo nada, eu nunca digo nada, eu não me queixo, eu não me valho a mim mesma, eu deixo-me cair para aprender a levantar-me, eu deixo-me cair para aprender a estar caída, eu sou eu, eu sou estupidamente eu, eu quero ser outra e não sou, eu quero ter tudo e não tenho, eu quero ter o nada e não posso, eu quero, eu, eu, eu, eu, eu...Mas será que ninguém lhe ensinou o resto dos pronomes pessoais? rebentam eles e dilaceram-me, é demais, é demais, não há poesia que te valha, pára de ser estúpida, pára de ser egoísta, pára de ser diferente...Estou mesmo seca de ser eu. Adormeci assim que me ensinaram o tu, ou lá o que o valha, e o resto então fez-me rebentar a rir tal é o absurdo do ele, do nós... Nós? Peço desculpa mas preciso rir mais um bocadinho... Vós e coisas assim parecidas.O mundo é um receptáculo de Eus, todos somos eus, tu és um eu, e eu nem sei, eu sei lá o que sou, eu sou uma merda qualquer mas sou.Preciso parar. Preciso parar que hoje ainda rompo as últimas amarras que me agarram ao mundo, à vida, à sanidade.Vou viver mais um dia, vou comer mais um dia, vou trincar mais um dia, vou aguardar mais um dia, vou fingir mais um dia, vou pintar mais um dia, vou escrever mais um dia, reinventar mais um dia, acelerar mais um dia, vomitar mais um dia, deglutir mais um dia, vou rebentar mas não hoje, vou gritar mas não agora, vou triturar mas é só depois, vou chegar mais além num qualquer momento.Por agora fico por aqui... Aqui neste lugar que não conheço, neste corpo que não é meu, estes olhos que são comidos pelas lágrimas, este rosto que arranho todas as manhãs, fico comigo, fico sozinha porque nem comigo consigo estar, mas fico, prometo ficar quieta não vos incomodar a benéfica surdez, não vos incomodar com a minha parca existência, vou fazer tantas coisas, vou elaborar mil planos, vou falhar todos eles, vou chorar a sua morte, vou reerguer-me das suas cinzas, vou tão só seguir a rotina, vou ser boazinha, não me vou despir, não vou dançar, JÁ DISSE QUE NÃO VOU DANÇAR... Guardem os frascos de remédio, peguem nos vossos psicólogos e arrumem-nos nos vossos bolsos, as vossas modernas bíblias que ensinam o bem estar em vinte passos, eu não acredito nisso, eu não acredito em vocês, eu nem acredito na vida, eu quero acreditar apenas no sonho, eu quero apenas trazer palavras, eu nunca mais vou comprar livros, nem ver filmes, nem passear, nem ver a Lua, nem falar.Eu vou parar de falar, eu vou parar de falhar, eu vou até parar de escrever... minto. Não consigo parar de escrever.É compulsivo. É compulsivo, mãe. Não vou ainda atirar-me no teu colo e morrer, ainda te vou enterrar, ainda vou chorar à tua campa sem ter gritado toda a merda que trago cá dentro, e ao outro então não direi nada, quero apagá-lo do meu bi, quero apága-lo do meu adn, quero fingir que o cabrão nem existe, quero rompê-lo, quero acreditar que ele é miserável como eu, quero acreditar que ele tem dor como eu, que acorda cheio de raiva de viver, quero acreditar que vai morrer de overdose ou algo ainda mais doloroso e lento.Não vou ainda dar-vos o direito de pensar que eu morri e já não estou aqui para gritar quando não é o momento de gritar e fazer silêncio quando choram, quando se dilaceram uns aos outros.Eu espero enquanto me ensinam os restantes pronomes pessoais. Será que quando morrer podem escrever na lápide EU e não aqui jaz a não sei das quantas, um nome qualquer e uma data qualquer e umas lamúrias quaisquer de pessoas que nem me conhecem?Ahh... a herege. A quebrada. A insana. A doente. A sem nome. A sem pronome.Eu. (T.)

Nenhum comentário: